Clarice
Brasil, 1975. Numa sociedade em que não se pode mencionar a palavra calcinha em rede nacional e a grande maioria das mulheres não sentiu os efeitos de maio de 68, Clarice Herzog, 34, conquistou seu lugar como vice-presidente de uma multinacional de publicidade. Seu charme, astúcia e audácia a tornam o centro das atenções onde quer que esteja. Rodeada de homens na sala de reuniões, sua voz é ouvida e respeitada.
Seu marido, Vladimir Herzog, o Vlado, acaba de assumir o posto de diretor de jornalismo da TV Cultura. O prestígio do cargo no canal estatal alça Vlado à mira da ala radical do regime militar. Todos sabem – inclusive Clarice – que o cerco se fecha sobre ele. Dentro de casa, Clarice e Vlado enfrentam o desgaste da vida conjugal, da disparidade de interesses, do cotidiano no cuidado com os dois filhos pequenos: Ivo, 9, e André, 7. Chegaram a dar um tempo, mas decidiram tentar de novo.
Vlado é intimado a prestar esclarecimentos sobre sua suposta ligação com o Partido Comunista, e Clarice tenta convencê-lo a fugir, em vão. Horas depois, o comunicado oficial: Vlado “suicidou-se” na cela do DOI-CODI. Uma mentira grotesca, coroada por uma fotografia forjada que se torna o símbolo de uma era. A revolta popular toma proporções nacionais, ameaçando o governo Geisel e arrastando Clarice e os dois filhos para o epicentro da História do Brasil.
Deprimir-se ou calar-se nunca foram uma opção. Sustentar a família e amparar os filhos? Sim. Mas, acima de tudo, lutar contra a farsa. Em plena vigência do AI-5, Clarice faz o impensável: processa o governo na Justiça Civil, acusando-o do assassinato de Vlado. Na esfera pública, enfrenta um processo marcado pela truculência. No plano pessoal, vê-se em meio à uma doença inexplicável de Ivo, apaixona-se por outro homem, recusando o papel da eterna viúva, da vítima. Mas a que custo? Resistir não é apenas bater de frente—e é aí que mora sua maior batalha.
Quando o regime impede o juiz de dar a sentença favorável, Clarice enfim sucumbe. Ao permitir-se quebrar, encontra a força que nunca soube que precisava. No abraço do filho, na vulnerabilidade que sempre rejeitou, descobre um novo jeito possível de estar no mundo. E enfim, contra todas as probabilidades, impõe à Ditadura sua maior derrota, abrindo caminho para muitas outras.